Não existe maneira simples e fácil de contar a experiência que é visitar Auschwitz. É extenso, complexo e difícil. Senta que lá vem textão.
Olhos desavisados podem me julgar estranha por haver estado tanto tempo (anos!) ansiosa para visitar um dos lugares mais cruéis e sombrios da história da Humanidade: Auschwitz.
Auschwitz foi o primeiro campo de concentração nazista, e logo se tornou o maior centro de extermínio em massa da população judaica e de outras minorias. Entre os anos 1940 e 1945, os nazistas deportaram pelo menos 1.300.000 pessoas a esse campo, das quais:
- 1.100.000 eram judeus
- 140.000 a 150.000 eram poloneses
- 23.000 eram ciganos (romani)
- 15.000 eram prisioneiros de guerra soviéticos
- 25.000 eram de outros grupos étnicos
Um milhão e cem mil dessas pessoas (1.100.000 de 1.300.000) morreram em Auschwitz. Aproximadamente 90% delas eram judias.
Sim, os números assustam.
Não confunda visitar Auschwitz com turismo. Não é um passeio. É uma experiência forte. Uma vivência muito importante, na minha humilde opinião, a qualquer ser humano. A qualquer pessoa que deseja compreender a nossa história, e evoluir.
Auschwitz: uma difícil lição de empatia
Visitar Auschwitz é uma lição de empatia. É olhar para aquelas pessoas e ver pessoas, e não números. E não crenças, etnias, religiões. Pessoas. Gente como a gente, com histórias e sonhos.
É ver a sua família, a sua mãe, os seus filhos. É ver a si mesmo.
É entender o que o ódio e a intolerância são capazes de fazer se espalhados livremente e ovacionados.
É se colocar no lugar delas – e por que não, de todas as vítimas de todas as guerras desse mundo! Que coisa mais sem sentido.
Um pouco sobre os campos de concentração Auschwitz
Construído na cidade de Oświęcim, a cerca de 60 km a sudoeste de Cracóvia.
A pronúncia de Oświęcim em polonês seria algo como “Oshvietzim”, e os nazistas teriam “alemanizado” a palavra, gerando o nome que conhecemos hoje para o maior campo de extermínio da Segunda Guerra.
Auschwitz é, na verdade, um conjunto de três campos de concentração:
Auschwitz I
Auschwitz II-Birnekau
Auschwitz III-Monowitz
Auschwitz é necessário
Precisamos entender o que aconteceu aqui. Precisamos sentir sua dor. Precisamos ter empatia com esses milhões (eu disse milhões) de pessoas que perderam suas vidas de forma cruel e bestial. Eles somos nós. Nós somos eles. Somos todos um.
Qualquer coisa que aproxime nossa sociedade a algum tipo de movimento desses hoje em dia deve ser absolutamente repudiado.
Muito respeito pela comunidade judaica. Que resiliência!
Foi muito importante fazer a visita acompanhada de outra pessoa – no caso, outra pessoa sensível e empática. Fui com a Jéssica Cezar, do blog Batendo Asa.
Já na etapa final da visita, em Birkenau, estávamos visitando a chamada “Sauna”, a casa que recebia os novos prisioneiros recém-chegados. Lá, eles tinham suas roupas removidas, seus cabelos e pelos do corpo cortados, tomavam uma ducha coletiva (gelada ou escaldante), sem sabonete ou toalha, e recebiam as típicas roupas listradas.
A última sala dessa casa continha painéis com fotografias de famílias judias inteiras. Jéssica olhava os painéis, enquanto eu me sentei num banco no canto do recinto. Num dado momento, entra pela porta de saída, no fundo da sala, um senhorzinho de bengala, acompanhado de outros dois homens mais jovens. Eu, de frente, observo.
O senhor se dirige diretamente a um dos painéis e começa a falar algo como “Mala! Mala!”. E aponta com vontade a uma das fotos. E repete o nome diversas vezes mais. O homem mais jovem dos três faz uma pergunta ao senhor e, com um sorriso no rosto, saca o celular e começa a filmá-lo. Na minha cabeça, ele seria o neto, talvez, e teria falado algo como “Quem que é, vô?”. E o avô respondia novamente: “Mala! Mala!”.
“Nossa, deve ser um familiar de alguém que esteve no campo!” – pensei.
Os três saíram pela mesma porta (a dos fundos) pela qual entraram. Ok, continuemos nossa visita.
Saindo da Sauna, seguimos à esquerda, onde havia câmaras de gás e crematórios. Ali ao lado, eram jogadas as cinzas das pessoas mortas nesses locais.
Pessoas caminhavam ali, e começaram a se aglomerar. Todas vestiam uma camiseta branca. Tinha um ou outro instrumento musical, um microfone e… uma bandeira de Israel. As pessoas fizeram um círculo, e algumas seguravam uma pastinha nas mãos.
“Ok, vai acontecer algo aqui”.
Um homem, fora da roda, nos perguntou se iríamos participar da cerimônia, e dissemos que não sabíamos do que se tratava, que estávamos apenas de passagem por ali. Ele nos disse que poderíamos assistir, se quiséssemos. Em voz baixa, ele foi contando o que acontecia, já que todos falavam hebraico: aquele grande grupo (mais de 20 pessoas) é de Israel. Eles são parentes de pessoas que estiveram naquele mesmo lugar, como prisioneiros, mais de 70 anos antes! Eles se reúnem de tempos em tempos no campo para fazer uma homenagem aos seus familiares. Cantam, citam os nomes, contam histórias. Havia até mesmo uma tradutora para linguagem de sinais.
Todos estavam de pé, com exceção do senhorzinho – aquele mesmo que havia entrado no prédio da Sauna! Então talvez meu palpite estivesse certo.
Não estava. Bem, não totalmente.
Lá pelas tantas, o homem que nos relatava a cerimônia vira e diz: “Estão vendo aquele senhor sentado? Ele tem 95 anos. Ele foi prisioneiro aqui em Auschwitz. Ele chegou jovem, com sua mãe. Ela foi para um lado – vocês sabem qual fila, né? –, e ele sobreviveu. Ele tem a tatuagem de número no braço, peçam para ver”.
Lágrimas, lágrimas incontroláveis inundam meus olhos.
Tivemos o prazer enorme de testemunhar uma cerimônia de israelenses que se reúnem de tempos em tempos ali mesmo, próximo a uma das ex-câmaras de gás/crematório, e onde jogavam as cinzas dos mortos.
“There is no way to understand postwar Europe and the world without an in-depth confrontation between our idea of mankind and the remains of Auschwitz”
“Aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo”
— George Santayana
Foi difícil escrever sobre isso. Emocionei-me algumas vezes. Mas eu precisava pôr para fora o que estava entalado aqui desde o dia da visita.
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