7 Cantos do Mundo

O que ninguém te conta sobre o Monte Roraima

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Você é maluca! Deus me livre!
Sou? o-ô  Conte-me mais sobre levar a mesma vida todos os anos…
Nove dias no meio do nada, caminhando igual uma camela... não sei pra quê você faz essas coisas! Precisa mesmo disso??
Ai, esses pais que não nos entendem…
Ah, mas lá deve ter muito bicho... E o frio? E a chuva? E banho? E comida? E banheiro?
Dizem os que só sabem ver empecilhos.
Nossa, sério?? Que animal!!!
Dizem os entendidos no assunto.
Caramba, você é doida! Mas que legal! Queria ter esta coragem...
Dizem os não tão entendidos no assunto, quando eu expliquei do que se tratava.
Humm entendi... E você foi a trabalho ou a passeio?
Dizem os definitivamente não entendidos no assunto, quando eu fiquei com preguiça de explicar do que se tratava.
Ah, é aquele lugar da novela, né? Vai encontrar o comendador??
Minha reação: ¬¬

(Querido leitor, permita-me explicar: não vejo novela e quero que certas emissoras de TV se explodam. E aqueles que me perguntaram isso e testemunharam minha expressão pós pergunta, perdoem-me, é mais forte do que eu).

Quem não ouviu alguma (ou várias) destas coisas quando anunciou que “o tal do Monte Roraima” seria sua trip da vez? Quando escolhemos destinos menos óbvios, estamos mais sujeitos a comentários curiosos, olhos arregalados e, por vezes, julgamentos acerca de nossa sanidade mental. Normal. A gente se acostuma.

Mas é fato que de óbvio o Monte Roraima não tem nada, te garanto. E não me refiro apenas à montanha enquanto formação geológica, mas principalmente à energia que ela tem e à experiência que ela proporciona. Parece-me um tanto quanto improvável que eu consiga explicar em palavras a intensidade do que foi esta vivência. Mas estou aqui pra isso, certo? Então vamos lá.

Muito além do óbvio

Ir ao Monte Roraima não é como uma outra viagem de férias qualquer, quando você diz que se “desconecta de tudo”. Aqui é justamente onde a conexão acontece. A verdadeira conexão – com o todo, com a mais pura energia do universo. O Roraima é um lugar primitivo, que parou no tempo, livre de contaminações ético-morais-sociais. Ele é puro, cru, in natura.

Subir o Roraima é muito mais do que cansar as pernocas e maravilhar-se com paisagens incrivelmente sensacionálicas. Subir o Roraima é voltar às origens – da Terra, da vida, do ser, de si. É entrar em profunda sintonia consigo mesmo. É questionar-se. É olhar para dentro. É despir-se das personas – aquele personagem social que interpretamos todos os dias em prol da vida normal. É deixar aflorar a sua essência.

É ver as coisas sob outra perspectiva…

Monte Roraima - Nascer do sol no mirante do Quati

Quando as suas “preocupações” do dia passam a ser tão simples quanto caminhar, respirar, alimentar-se e descansar, você abre espaço a uma infinidade de sensações e reflexões. Afinal, não é todo dia que você tem o privilégio de acordar e dizer: “Bom dia, um-dos-lugares-mais-antigos-do-planeta-que-permaneceu-intocado-até-os-dias-de-hoje!”.

Esta percepção, por si só, já é deveras interessante. Mas tem mais: não é todo dia que você tem o luxo de não precisar saber qual é o dia da semana ou do mês – e simplesmente não lembrar; de não precisar saber o ano em que se está, o que aconteceu e o que está por vir – e apenas não pensar nisso; de não precisar olhar para o relógio para saber que horas são – porque não importa, você não tem compromissos. Não é todo dia que você tem a sensação, a maluca sensação, de não saber em que lugar do mapa mundi você se encontra!

Hã? Quê? Mapa? Localização? Mundo? O que é isso?

Você simplesmente abandona o óbvio conhecido e parece imergir em uma realidade paralela: um lugar mágico que flutua numa interface do espaço-tempo. Matrix total! Doideira, né? As pessoas devem achar que não batemos bem da bola quando falamos sobre isso. Mas espera só você chegar lá para ver! Você vai ser mais um louco entender que essa montanha tem realmente alguma coisa maluca, que mexe com a gente lá no fundinho – um “plus a mais”! Sério.

Tudo é energia

Monte Roraima - Pôr do sol no Kukenan

A natureza tem uma energia intrínseca a ela que nos traz paz de espírito. Ok, quem dá suas escapulidas periódicas pro mato por aí sabe bem disso. Mas tenho pra mim que um lugar primitivo como esse mantenha algum tipo de energia também primitiva, alguma conexão maior com o universo – energia esta que, obviamente, ignoramos, por conta de nossa inserção na sociedade e todos os preceitos morais decorrentes dela ao qual somos aprisionados.

Deixamos pra lá o nosso lado animal, sensitivo, irracional – afinal, já que fomos presenteados com o dom da razão, vamos destruir todo um mundo sensitivo-espiritual e construir um mundo concreto-alienante, não é mesmo?! O.o Parece ser este o (triste) rumo da humanidade e seus avanços tecnológicos infindáveis e super necessários!… Daí a nossa necessidade de nos reconectarmos com a energia maior do universo, a energia pura – e talvez por isso nos sintamos tão bem em locais de menor interferência do Homem.

Tão onírico quanto real

No melhor estilo Dory: “Ô, consciência, eu morri?” (Procurando Nemo – Disney, 2003)

É a sensação que se tem quando se está acima das nuvens: de que se está no paraíso. Ou em um sonho. Em um lugar que pertence, no mínimo, a outra dimensão. Você desacredita que esteja localizado em algum ponto do planeta Terra, tal é o seu desencaixe da realidade conhecida. Realidade? O que é isso afinal? Qual é a verdadeira “realidade”? Este estado puro com sua essência exposta, ou aquilo que você deixou em casa, aquela vida pré-formatada, moldada pela sociedade, aquele trilho no qual você vive? Eu tenho lá minhas suspeitas.

No Monte Roraima, você fica tão espiritualmente aberto que simplesmente esquece das coisas que tem – sejam bens materiais, sejam obrigações e amarras que nós mesmos criamos – e dá espaço apenas para o ser. E então percebe o quanto no fundo é isso que realmente importa. E se dá conta de que é preciso muito, mas muito pouco para ser, verdadeiramente, feliz. O resto é bobagem.

 A palavra que define é: Plenitude 

A melhor ilustração disto foi um momento – que eu levarei para sempre no coração – em que nossa amiga virou e falou: “Se me dissessem para fazer um pedido agora, pedir qualquer coisa, eu não pediria nada”. É isso! Não havia o que pedir, nada além a desejar. Só queríamos estar ali naquele momento e nada mais. E esta é a melhor sensação DO MUNDO! Pode acreditar. Conseguir, de verdade, viver o aqui e o agora. Eu não conheci sentimento melhor que este até hoje: PLENITUDE.

Em outras palavras

O que ninguém te conta sobre o Monte Roraima é que você vai voltar um E.T. Você não vai mais se sentir encaixado no mundo “real”. Muita coisa supérflua vai deixar de fazer sentido, e tantas outras mais simples vão ganhar importância. Você não vai mais conseguir sustentar conversas fiadas sobre assuntos banais e superficiais. Você vai se sentir emocionalmente vulnerável, e vai se sensibilizar com coisas singelas.

E você vai atrair coisas boas, pois estará energizado de uma maneira única. E você vai ficar (mais) inquieto, e vai querer mais e mais. E vai ter uma eufórica sede por conhecimento – principalmente por si próprio. E isso, oxalá, te acompanhará para sempre.

Faça um favor à sua alma? Suba uma montanha.

 Porque no final, você não vai se lembrar do tempo que passou trabalhando no escritório ou cortando grama. Suba aquela maldita montanha  – On the Road, Jack Kerouac

Monte Roraima - La VentanaGRATIDÃO 

  Data da trip: Março de 2015.

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Sobre a autora Ver todos os posts Site da autora

Laura Sette

Bióloga paulistana que não vai sossegar enquanto não conhecer os sete cantos do mundo. Apaixonada por natureza e culturas, é perdendo-se por aí que ela se encontra. É viciada em livros e café, positividade é sua filosofia de vida e não perde uma oportunidade de rir e fazer rir com uma (nem tão) boa piada.

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50 ComentáriosDeixe um comentário

  • Profundo!
    Não vejo a hora de sentir isso ..
    Realmente subir uma montanha não tem sensação que descreva.
    Obrigada por mais um post tao bom!

  • Laura onde assino? Rsrs
    Foi exatamente essa sensação que tive ao subir o Monte RR, você consegui descrever perfeitamente! Voltei com outro pensamento de vida!
    Amei, me vi em cada palavra sua aqui escrita!

  • Cara autora

    Eu senti isso e muito mais quando estive no monte, a sensação de cansaço físico é irrelevante quando volta a comunidade de Paratepuy e percebe o quando você pode viver livre das “coisas da vida moderna” e do autoconhecimento do seu psicológico, mental e corporal.

    Moro em Roraima e quero repetir a experiência tão logo possa, sei que o meu olhar será outro completamente diferente da primeira subida.

    Abs,

    • É isso mesmo, Tiago, o que fica pra gente dessa experiência não são os perrengues (acho até injusto chamar de perrengues, na verdade), mas sim toda essa parte de introspecção e energia que vc sentiu na pele. Não é mesmo? Legal que vc está pertinho de lá e pode ir com mais facilidade. Pretendo voltar um dia também, em outra fase da minha vida, e ver o que acontece, qual será a mágica da vez! Obrigada pelo comentário. Um abraço!

  • “O majestoso Monte Roraima e estratosférica percepção de Laura Sette. Ao ler o excelente texto lembrei do vazio, da simplicidade e, do encontro com a extraordinária e necessária solidão”

    (Izidius, o romano).

  • Se estar em contato com a natureza nos deixa mais calmos e com a alma mais leve, fico imaginando a sensação de estar lá no topo longe de tudo. Monte Roraima sempre me atraiu sei lá se é pelo desafio ou se é a energia do lugar me chamando. Só sei que se antes eu tinha dúvidas, após ler seu post já não há nenhuma… Monte Roraima aí vou eu…. Obrigada Laura! Amei o texto!

    • Ele também me chamou, Elizete. E a melhor coisa que fiz até hoje foi atender a este chamado; ele me transformou (a parte do E.T. é sério! hehe). Fico feliz que vc tenha encontrado o empurrãozinho que faltava. Vá, curta cada segundo de paz e silêncio, e se quiser depois voltar aqui pra nos contar sua experiência, será muito bem vinda! 🙂 Super beijo!

  • Que demais Laura!! Há algum tempo venho me interessando cada vez mais sobre trekking e os seus textos tem me dado mais coragem e alimentado mais ainda esta vontade! Não vejo a hora de começar a caminhar..

    ps: os seus textos são leves, gostosos de ler!
    Parabéns!!

    • É difícil explicar, né, Rodrigo? Acho que pensam que eu sou meio pancada quando falo com intensidade sobre essa experiência pras pessoas… hehe Compartilho desse sentimento com você, de querer que as pessoas sintam isso também…
      Pára tudo! Que fotos são essas?? 😮 Incríveis!!! Parabéns! Um abraço

  • Parabéns, relato execelente, sou trilheira ha 4 anos, tenho 57 anos e vou p Monte Roraima em outubro /16, estou em busca de infor. p desfrutar com segurança.
    Obrigada
    Maria Cadete

    • Obrigada, Maria Cadete! Muito me alegra que tenha optado por este estilo de vida tão fantástico – tem gente muito mais nova que diz que “o tempo pra ela já passou”… não me conformo. Parabéns mesmo! E curta muito o Monte Roraima, que é um lugar de uma energia única. Um abraço

  • Olá Laura, ja fui duas vezes e as suas palavras descrevem perfeitamente o inesplicavel de estar neste ambiente!
    Estou tentando com muita dificuldade produzir um vídeo da ultima vez que estive neste paraíso e suas palavras me inspirou bastante.

    Att,
    Samuel Oscar (DRONE DA MONTANHA)

  • Laura, oi!
    estou há tempos querendo conhecer o Monte Roraima, e encontrar o seu blog me fez começar a concretizar a viagem. Tenho viajado sozinha, para lugares não óbvios, há dois anos. Queria saber, por favor, se você foi sozinha para o Monte e, se sim, recomenda algum cuidado especial.
    Obrigada por compartilhar!

    • Olá, Ludmila!
      Que bacana! Eu fui sozinha sim, e fiz o trekking com a Roraima Adventures, num grupo de cerca de 15 pessoas. Foi tudo super tranquilo! Recomendo apenas os cuidados de sempre, como em qualquer lugar e qualquer situação.
      Continue com os planos da viagem, vale a pena! 😉 Obrigada pela visita! bjs

  • Oiiiiii! Adorei seus textos. Voltei semana passada do Monte Roraima e já estou com saudades….Vontade de voltar! Uma coisa que me deixou intrigada: a agência prometeu nos levar na proa, não levou, só um pouco (uma meia hora) depois do lago Gladis. Falaram que precisava rapel, cordas, etc….????? Sério isto
    Abraço

    • Oi, Ivanice! Eu fui em março de 2015 e MORRO de saudades até hoje! hahaha
      Jura que a agência prometeu isso?? Nossa! O que eu ouvi quando estive lá é que justamente NINGUÉM vai pra lá, porque é muito isolado, escorregadio, e acaba sendo perigoso. Parece até que é proibido escalar lá (ouvi dizer). Então acho que, na verdade, sua agência foi prudente em não te levar até lá – e não foi bacana ao prometer uma coisa que não iria cumprir :/
      Anyway, a experiência do Monte Roraima é incrível, mesmo sem ir na proa, né? hehe 🙂 bjos!

  • oi Laura!

    Achei tudo isso muito forte, inspirador, atraente! Acredito muito nessas conexões e principalmente na necessidade de fazê-las. Desconectar para conectar!

    Também acredito no que você diz sobre energia primitiva: cada lugar carrega a sua e claro que com menos interferência humana ela deve ter uma força desconhecida (ou esquecida) por nós. Talvez por isso seja tão marcante!

    Enfim, essa história de energia e lugares fortes como o Monte Roraima, dá muito pano para manga e boas conversas. Achei o texto lindo e dele tirei muitas reflexões e vontades e desejos! 🙂 bjus

  • Adorei esse post! Realmente parece ser um local mágico! É curioso como as vezes é preciso apenas UMA experiência “fora do comum” pra gente mudar bastante nossa opinião sobre as coisas que realmente importam (e deveriam fazer mais sentido na vida) né?
    Eu nunca tinha ouvido falar nesse lugar, mas só essa experiência que vc relatou já me deu vontade de ir um dia.

  • Fiquei anestesiada ao imaginar a deliciosa sensação que foi essa viagem, é um dos sonhos do meu esposo e vou salvar em favoritos para que ele possa ler.
    Talvez eu me anime para ir junto!
    Abraços.

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